Leio-me por vezes
e sinto o meu silêncio
em cada sílaba
Cada poema é um estádio
cheio de memórias nunca vividas
Alimento o monstro que,
dentro da gaveta
raramente espreita
engole e devora cada palavra
como se fosse sempre sua
Sem força, esqueço os rostos
que me alimentam a vida e,
religiosamente obedeço
à ordem do seu silêncio
Assusto-me só de saber que um dia
o monstro terá uma vida fora de mim.
Franzo o sobrolho e coço cada cabelo
que não tenho
à espera de uma verdade
que quando chega é apenas areia fina
de um deserto deserto.
Coloco novamente a máscara da poesia,
a “máscara cirúrgica”
– de quem enfrenta a vida com prudência –
e sorrio à morte com meia-cara.
A outra metade conecta o vazio da
palavra que ainda não o é.
Juntos, morte e palavra
Alimentam a vida de quem desaparece
progressivamente.
Poema devido a José Viale Moutinho e à inexplicável viagem que nos proporciona com a leitura do livro de poesia Desaparecimento Progressivo, da Editora Exclamação.
—
Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.