A escritora Maria Teresa Horta, a última das “Três Marias”, morreu aos 87 anos, em Lisboa.
Para além de todos os factos inegáveis e enaltecidos de forma unânime por toda a impressa nacional, Maria Teresa Horta foi, efectivamente, uma personagem ímpar na sociedade portuguesa contemporânea, não apenas pela circunstância histórico-social com que se debateu de forma quase espontânea e involuntária, mas também pelo contributo que, livremente, nos abrilhantou durante décadas pela poesia que nos legou e, essencialmente, pelo modo de vida com que se permitiu existir:
“Eu sou a minha poesia”
Destaco ao nível das homenagens realizadas, o exímio trabalho do jornalista Bernardo Mendonça que através do seu espaço “A Beleza das Pequenas Coisas” nos deu a conhecer um conjunto de factos de um interesse particularmente belo:
Já no final de uma longa conversa que tive com uma senhora que dobrara a esquina dos 80 anos, ela falou-me “do fulgor intacto da paixão ardente e desmedida” que tinha pelo marido.
Esta mulher, dona de uns olhos azuis profundos, cheios de curiosidade e de perguntas, contou-me com uma convicção impossível de rebater que ainda estava apaixonada pelo marido.
E que o desejo, sim o desejo, o fogo, a paixão, crescia por ele todos os dias. Fiquei pasmo. Quis saber mais. Como era isso possível?
“Não pode calcular quão desmedida é esta paixão, é muito desmedida mesmo. Como é que se faz para aguentar tanto fogo? É complicado. E é bom. A paixão é uma coisa boa, mesmo que magoe.
O que me diziam é que ‘ o amor passa e fica a amizade’. Para amizade tenho os meus amigos, Tenho sido uma sortuda por amar o homem com quem vivo há 55 anos. A paixão tem aumentado ao longo dos anos, galopantemente. É incontrolável.”
Não resisti a perguntar-lhe do que mais gostava neste amor que atravessava uma vida inteira. Respondeu-me: “De tudo. Mesmo daquilo que não gosto.”
Estava desarmado e surpreendido. Tinha a certeza que esta mulher não me mentia.
E vendo-me fascinado com a história de amor, a senhora que era toda poesia, ainda me disse que apesar de defender a igualdade de direitos para homens e mulheres, fazia questão de lhe engomar as camisas, e não deixava a empregada tocar nos colarinhos do seu amado.
Fazia-o porque queria, não por imposição ou necessidade. Era por amor.
E o seu marido devolvia-lhe o mesmo carinho, quando passava os olhos nos escritos poéticos da mulher, com o mesmo amor, a mesma admiração, sem achar uma única palavra desengomada:
“Quando abro os olhos e olho para ele, é como se o visse pela primeira vez e penso: “Que homem lindo que tenho na minha cama. Que sorte eu tenho, veio dormir comigo um anjo.”
Este homem chamava-se Luís de Barros, jornalista e antigo diretor do DN, que partiu seis anos antes da sua mulher e eterna apaixonada: a poetisa da liberdade, feminista e insubmissa, figura maior da literatura, a última de “As Três Marias”, mulher corajosa a quem devemos muito, Maria Teresa Horta.
E, como se não chegasse, temos ainda o privilégio de poder ouvir, livremente e na íntegra, uma entrevista que o Jornalista realizou em Novembro de 2019, na sala de estar de Maria Teresa Horta:
Descobrir que uma das pessoas mais importantes da História de um Portugal Moderno, no que respeita ao feminismo esclarecido, à emancipação da mulher na sociedade portuguesa e à igualdade dos direitos entre géneros é, simultaneamente, a mesma pessoa que, com amor e pelo amor, engomou durante anos os colarinhos das camisas do marido, é um facto de conforto para todos aqueles acreditam que a resolução dialéctica não é apenas uma questão teórica hegeliana mas, e acima de tudo, uma questão do quotidiano mais íntimo na vida de cada ser humano. A superação entre contrários não é necessariamente uma questão fracturante da história e do pensamento filosófico, mas, essencialmente, uma possibilidade de viver o dia-a-dia de uma forma esclarecida, humana e justa.
Factos incontornáveis:
• Maria Teresa Horta foi incluída numa lista elaborada pela estação pública britânica BBC de 100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo, que incluía artistas, activistas, advogadas ou cientistas.
• Estreou-se na poesia, em 1960, e foi fundadora do movimento Poesia 61, um dos movimentos poéticos mais relevantes do panorama literário português da segunda metade do século XX.
• Maria Teresa Horta era uma das “Três Marias”, a par de Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, que lançaram em 1972 as “Novas Cartas Portuguesas”, uma obra que foi proibida pela censura e destruída poucos dias depois de ser lançada. Pelo conteúdo, considerado “pornográfico e atentatório da moral pública”, foram levadas a julgamento, mas o 25 de Abril interrompeu o processo. Foi alvo de muito atenção internacional por, na época e na circunstância política que se vivia então, abordar temas como a discriminação e condição das mulheres, a repressão do Estado Novo, a denúncia da Guerra Colonial e do conservadorismo da Igreja Católica.
Para mim, Maria Teresa Horta, ficará para sempre reconhecida como a feminista insubmissa que, livremente, engomava os colarinhos das camisas do seu amado.
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.