António Ramos Rosa, o silêncio inaugural

No silêncio inaugural
tudo é ruído
espaço e tempo, coordenadas por-vir
estilhaços de um depois desarmante

Quem és tu palavra
no momento primordial do silêncio absoluto?

A mesma que está em cada poema
criado pela nudez do seu autor

Ser, Palavra, Poesia
bomba atómica de uma só ontologia
que não cabe no humano!

Poderá a escrita materializar uma realidade desmedida?

Procuro no vento os pontos cardeais do real
que o olhar da poesia torna tangível.
Os ventos respondem-me sempre com pensamentos
Daquilo que já não é agora vento

É apenas poema,
extensividade máxima da liberdade não extensa
Cogito não cogitado pelo sopro de uma
vontade não humana.


Ivo Aguiar

21256

Uma reflexão para lá do poema…

A poesia de António Ramos Rosa como lugar de confronto com uma “ausência desarmável” (Eduardo Lourenço).

António Carlos Cortez sublinha 4 dimensões fundamentais da poesia de Ramos Rosa:

1. A poesia conta a ausência
. não é uma ausência metafísica (Pessoa)
. não é uma ausência psicológica (Régio)
. não é uma ausência ideológica (Neo-realismo)
É antes uma ausência de onde irrompe a intuição de uma “presença apaziguante e inesgotável” (Eduardo Lourenço). A poesia deve ser risco, reinvenção, edificação (Gastão Cruz) e reedificação de um mundo, “Pedra sobre Pedra”. Toda a poesia é um incumprimento.

Escrever poesia é não só incorporar a materialidade do real no poema, mas recriar o modo como, olhando-a, essa realidade se afirma poeticamente como coisa tangível.

2. Poesia-Crítica como Liberdade Livre
Poesia como diálogo com o universo e expressão máxima que a liberdade humana pode alcançar. Se ler é sentir o que se lê e é esse o sentido da dupla condição de poeta-crítico, então ler é sentir, sentir é comunicar e comunicar é viver livre.

3. Poesia Humana e Humanista
A sua poesia é uma poesia de profundo humanismo, jamais virada para dentro de si, mas sempre reflexiva, demandando compreender por que razão a poesia é o espelho das contradições humanas e por que razão é a poesia a grande arte dinâmica e por isso arte necessária que vive da contradição fecunda através da qual quem lê poesia se descobre na sua indeterminação. A poesia como factor determinante do pressuposto filosófico por excelência da Filosofia Socrática e sobre a qual alicerçamos a base da cultura grega.

4. Uma poética que começa nos títulos… e a eles regressa.
Títulos que (pré)anunciam a não significação do que vai ser dito, mas onde a defesa intransigente de um não-saber, de uma ignorância essencial, condição mesma da poesia, se pressente numa viagem à qual podemos regressar eternamente.

Às quatro condições destacadas por António Carlos Cortez eu destacaria uma quinta dimensão:

5. Poesia como condição
Poesia como condição ontológica e antropológica para a realização livre do humano através da síntese dialéctica dos opostos: imaginação e realidade, criação (escrita), criador (autor), criatura (poema) e recriação (leitor, espectador). Na poesia de Ramos Rosa há uma urgência pela convergência do absoluto. A poesia como síntese dialéctica entre as diferentes forças de opostos como compõem o universo, dentro e fora do humano.

[texto publicado sem qualquer revisão ortográfica e escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico]

Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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