Foi poeta, ensaísta, ficcionista, tradutora, investigadora e professora jubilada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Figura com pensamento ímpar sobre a realidade, deixou-nos precocemente em Agosto de 2022, com apenas 66 anos de idade. Foram muitas as figuras que teceram o seu comentário perante esta perda incontornável para a sociedade portuguesa, desde as artes em geral até ao universo das letras em particular. Com este pequeno esboço quero também tecer a minha eterna homenagem à poeta que, com sentido universal, sempre se fez erguer perante os estigmas e as barreiras a que a sociedade nos submete.
O destino tem ironias vertiginosas: faleceu com 66 anos, passados 33 anos da publicação do seu primeiro livro de poemas Minha Senhora de Quê, com 33 anos de idade. Três décadas de vida literária bem preenchida com três dezenas de livros publicados constituindo-se como um dos nomes mais aclamados da literatura portuguesa actual.
Em vida, foi fortemente distinguida quer em termos nacionais como também internacionais: em Portugal, Grande Prémio APE Poesia, Vergílio Ferreira e Francisco Sá de Miranda, em Espanha, Prémio Rainha Sofia da Poesia Ibero-Americana.
Em Outubro de 2021, o Jornal de Letras destacou e dedicou a Ana Luísa Amaral algumas intensas e merecidas páginas da sua edição:

Para Ana Luísa Amaral “a poesia é tangente ao mundo” e “não pode ser alheia ao tempo em que vivemos”. A sua poesia é uma arte subversiva inerente a um real que esbarra e transborda sentido de si. A sua arte poética é “no avesso” como destaca a ensaísta e professora na Universidade de Coimbra, Maria Irene Ramalho, que orientou a sua tese de doutoramento sobre Emily Dickinson. Tudo e todo o mundo cabe na sua poesia: do humano ao cósmico, do quotidiano ao transcendente, do ínfimo ao infinito, para ela, “tudo é poetável”.
Ana Luísa Amaral sempre posicionou a sua poesia como um gesto altruísta no sentido em que tantoo nela, como para ela, o Outro tem um lugar essencial. Ela que sempre se bateu pela igualdade, pela diferença, pela justiça e pela liberdade gostava se sublinhar: “é tão importante o amor, a solidariedade, o gesto em direcção ao outro”. Através do outro conseguimos perspectivar o nosso próprio “eu”. A sua poesia é um exercício ético na medida em que o “eu” (esfera natural) se consegue objectivar através do “nós” (esfera transcendente). A ética, para além de constituir uma esfera de ser do real é um acto de transcendência. A saída do “eu” para a esfera do “outro” é um acto de transcendência que pode ser vivido como um exercício de espiritualidade a que chamamos solidariedade. Com Ana Luísa Amaral a estética e a ética não estão de costas viradas. Segundo a autora em nome da igualdade devemos privilegiar sempre as diferenças. “As diferenças são maravilhosas em si. O problema é quando se tornam desigualdades”. Só com muita mestria se consegue com uma frase simples tão profunda reflexão acerca da igualdade. Não apenas uma reflexão semântica, mas também sociológica, antropológica e filosófica, até. Com esta frase conseguimos perceber que o termo igualdade, em português, pode constituir-se como antónimo de dois conceitos totalmente distintos: diferença e desigualdade. Antónimos tão desavindos fazem a língua portuguesa desaguar, por vezes, num terreno propício à injustiça.
Maria Irene Ramalho, de quem era amiga, destaca ainda, com justiça, dois pontos fundamentais na obra da poeta.
Em primeiro lugar, aquilo que designa como “a arte de dizer não” transversal a toda a sua poesia e particularmente vincado no poema Testamento que escreveu para a sua filha Rita:
Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos
Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas
Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.
Para Ana Luísa Amaral dizer “não” significa abrir espaço para o humano “sim” da criatividade e da construção. Cumpre-me sublinhar o carácter higiénico que a sua poesia pode exercer perante a poluição que a realidade de hoje nos pode submeter. Dizer que “não” é um trabalho de limpeza, quase purificação (purga) exigido pelo nosso “avançado” quotidiano. Dizer que “não” à multiplicidade que hoje nos é oferecida é um exercício de liberdade sempre actual, em nome deste “sim” ao humano e ao sentido mais livre e criativo que este pode alcançar. Num mundo repleto de feeds que invadem o dia-a-dia e apelam ao mais involuntário de “nós”, deixemos um espaço (de tempo) para Ana Luísa Amaral e para a sua poesia em nome desta liberdade verdadeiramente humana. O Olhar Diagonal das Coisas, o volume de poesia reunida, publicado pela Assírio & Alvim, é um excelente mote ao “sim” da vida e da forma como “nós” humanos nos podemos relacionar com ela de uma forma mais criativa, mais construtiva e, enfim… mais livre.
O seu Testamento é um óptimo exemplo de “subversão do statu quo e da transgressão do convencional estereotipado”
Em segundo lugar, a sua posição feminista sobre a realidade que vai muito para além das dialécticas feministas de oposição, rejeitando as identidades fixas, facilmente estereotipáveis e estigmatizáveis, para, assim, abraçar o devir deleuziano a que se tem chamado teoria queer. O que nos traz Ana Luísa Amaral não é um olhar nem “masculino” nem “feminino” mas um atento olhar feminista sobre a tradição e sobre o mundo – um mundo a precisar de ser reinventado.
À poeta que tão bem soube escutar o infinito e transformar o vazio em poesia verdadeira deixo a minha arriscada homenagem:
Em cada poema, cada verso, cada palavra
um fragmento solto e unido
de uma inspiração instantânea do mundo.
Num instante espinosiano
intuímos o mundo inteiro
mas depois, é preciso o trabalho
deixar o poeta trabalhar.
O poeta converte
a intuição em palavra escrita.
Poetar é traduzir
a mónada do pensamento e do mundo
numa linguagem infinita de sentido.
Cada poema, cada sílaba, cada silêncio
parte de uma viagem que
começa e acaba numa relação eterna
entre o vazio e o infinito
e onde… por vezes
conseguimos apenas espreitar
O Olhar Diagonal das Coisas
Ana Luísa Amaral deixou-nos a herança de um tempo que urge e a necessidade de repensarmos a vida como um contínuo suspenso de tudo aquilo que nos é desajustadamente imposto. “O tempo da poesia é um tempo suspenso”.
“A poesia é, sempre foi, o espaço da mais pura possibilidade, o espaço onde é possível ensaiar, e até encenar, diversas identidades. E, para mim, ela pode funcionar como um dos lugares privilegiados de inclusão”.
A poesia, para Ana Luísa Amaral, é uma espécie de correlato da vida em Heidegger. Segundo o filósofo a vida é o conjunto de todas as possibilidades determinadas pela possibilidade que finda todas as outras: a morte. Neste entretanto que é a vida, a poesia é uma espécie de casa (guardião) do Ser, que na senda da poeta, liberta de forma exponencial um espaço de possibilidades infinitas. Muitas relações interessantes poderiam ser exploradas entre a poesia de Ana Luísa Amaral e a ontologia de Martin Heidegger.
Por fim, o seu amor incondicional demonstrado, ao longo de toda a vida, pela língua portuguesa. Assumidamente incapaz de enviar “bjs” e “cmps” por SMS ou de concluir uma frase sem um ponto final. Uma verdadeira chatice para todos aqueles que pensam a abreviatura como nova fórmula de relacionamento com o tempo. A pressa é inimiga do ser humano e a poesia, e a literatura em geral, devem guardar aquilo que o ser humano tem de mais precioso na sua relação com o tempo, “um tempo suspenso”. Amava as palavras por inteiro e, com esse sentido, superou-se deixando-nos mais um legado ímpar a habitar os terrenos da imortalidade humana.
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.