László Krasznahorkai: Anjos, Dignidade e Rebeldia

Estou a concluir a leitura de uma das poucas obras traduzidas em Português do mais recente Nobel da Literatura 2025, László Krasznahorkai. Leitura extensa, prolongada, esticada até ao infinito de uma frase única com 379 páginas. Um hino à literatura para quem considera a leitura um desafio intelectual exigente e compensador e não apenas, um exercício de entretenimento. Com a literatura podemos ultrapassar os limites do nosso pensamento e, por esta via, ampliar a nossa liberdade. Mas não é sobre a obra de Krasznahorkai que pretendo versar a minha reflexão.

Desejo, genuinamente, que todos consigam ultrapassar a limitação dos frames de 8 segundos e consigam dedicar 8 minutos das suas vidas à leitura integral do discurso de Krasznahorkai, aquando da entrega do Prémio Nobel da Literatura 2025. Um texto curto, que evoca a Esperança e que, por falta dela, nos fala directamente de Anjos. Não dos clássicos da “mensageiros celestes” com asas, mas de outros anjos que nos olham silenciosamente como se nunca estivessem estado ali e nos interpelam, sem notificações: “para onde vai a humanidade?”

O seu discurso em Oslo é um exercício literário que desagua numa interessante reflexão filosófico-poética onde traça o caminho do humano desde os tempos da Arte Rupestre, com paragem obrigatória na Estação de Bach, até chegar ao século XXI num lamento pela perda de valores e, acima de tudo, da imaginação que tanto nos caracteriza.

Para o Nobel, a tecnologia e a lógica utilitarista estão a destruir a nossa capacidade de imaginar, reduzindo a nossa memória à condição de fragmento. O fragmento é cada vez mais curto tal como a nossa memória. Estamos a assistir a um processo de digitalização da memória e a esse nível Krasznahorkai convoca todos os Elon Musks deste mundo: “Já não existe um lugar divino, mas um eterno ALGURES, onde as estruturas insanas dos Elon Musks deste mundo organizam o espaço e o tempo.” Um apelo íntimo à dignidade do humano num eterno retorno incapaz de se pensar a si mesmo e num percurso rumo à rebeldia como pilar fundacional de todos nós.

“... criaste arte desde os desenhos das cavernas até à Última Ceia de Leonardo, desde o encantamento mágico e sombrio do ritmo até Johann Sebastian Bach; por fim, de acordo com o progresso histórico, começaste, de súbito e por completo, a não acreditar em nada; e, graças aos dispositivos que tu próprio inventaste, destruidores da imaginação, restou-te agora apenas memória de curto prazo; assim, abandonaste a posse nobre e comum do conhecimento e da beleza e do bem moral, e agora estás pronto para te mudares para as planícies, onde as tuas pernas se afundarão — não te mexas; vais para Marte? em vez disso: não te mexas, porque esta lama vai engolir-te, vai puxar-te para o pântano; mas foi belo: o teu caminho pela evolução foi de cortar a respiração; só que, infelizmente, não pode ser repetido.

Ah, basta de dignidade humana.

Falemos antes de rebeldia.”

 

A rebeldia de que nos fala é antes de tudo um travão urgente para quem está, desde já, em direcção a Marte. Um travão em nome do pensamento livre. Como conseguiremos no mundo de hoje proteger a educação, a democracia, a cidadania, em suma, a liberdade, se não temos mais de 8 segundos para pensar? Krasznahorkai puxa-nos de volta à Terra e convida-nos a um passeio pelas palavras como se estivéssemos descalços num chão cheio de cartilhas propagandísticas predefinidas. Extremos que se opõe para nos compor uns contra os outros. Aceitar a sua reflexão é hoje um exercício quase exotérico, mas tão necessário quanto a velocidade com que somos engolidos por um inexplicável demiurgo digital. Em nome da dignidade humana saibamos defender a nossa liberdade com o mesmo espírito de quem viaja num comboio que desliza pelo universo sem estação para sair, com a mesma rebeldia que alimenta a alma de quem pensa que a revolta é sempre um exercício universal: “toda a rebeldia é em relação ao todo”, incluindo nós mesmos, e não apenas à parte. Revoltar-se é, neste sentido, um exercício a favor da dignidade humana e da sua contínua liberdade.

Link texto original EN

Link texto original SV

Link Tradução Automática AI PT

[texto publicado sem qualquer revisão ortográfica e escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico]

 


Ivo Aguiar

21604

Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

Adicionar um comentário

*Please complete all fields correctly

Publicações Relacionadas