A importância da Filosofia não se confina à circunstância sociocultural do momento histórico. A importância da Filosofia sobrevoa e ultrapassa as contingências da sua própria história. A atitude filosófica é inerente ao humano. A filosofia tem um peso histórico assombroso em qualquer árvore do saber que se possa desenhar, no entanto, enquanto atitude, a Filosofia será sempre contemporânea do humano sempre e quando este considerar pensar-se (a si e ao mundo) de uma forma crítica e racionalmente livre. Este é um esforço que Habermas nos explica de uma forma sistematizada na sua obra Uma Outra História da Filosofia. Muitas vezes desconsiderada por outras formas de discursividade ao longo dos séculos, como a religião e as ciências, mas também por outras formas de discursividade ignorantemente niilistas, como é o discurso da pós-verdade que, hoje, assola grande parte da literatura (ou ausência dela) disseminada nas redes de propagação digital, a Filosofia é a prova da sobrevivência homeostática do saber. Bastará um ser pensante com uma atitude filosófica perante a totalidade do real, que a Filosofia nunca morrerá. Poderá um dia assumir outro nome, outra gramática, outra forma, outra roupagem… mas, enquanto atitude, nunca morrerá.
É cada vez mais difícil “pregar” a sua absoluta necessidade perante a urgência de pensar de uma forma livre. No mundo de imagens que, estáticas ou em movimento, ensinam o homem a sobreviver e onde a inteligência enquanto pilar fundamental da excelência do ser humano foi amplamente substituída pela aparência da estaticidade representativa de uma imagem, é urgente, perceber e ensinar a necessidade da Filosofia, nas escolas, em casa, e na vida em geral das pessoas.
Guilherme d’Oliveira Martins descreve-nos, de forma sucinta, a importância que a mais recente publicação de Habermas, Uma Outra História da Filosofia, I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber assume perante o universo de saberes continuamente fragmentados e hiperespecializados que hoje comandam indivíduos, empresas e organizações de todas as índoles.
“A publicação na coleção dos clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego, constitui um acontecimento assinalável, incompatível com uma apreciação superficial de algo profundamente pensado pelo seu autor, que é hoje “indubitavelmente o filósofo alemão com maior projeção e o modelo, por excelência, do ‘intelectual público’ intervindo regularmente na imprensa”, com participação marcante nos principais debates sociais e políticos.
Ao pôr mãos à obra na História da Filosofia, começa por se perguntar que sentido têm hoje as bem conhecidas perguntas de Kant: “Que posso saber?”, “Que devo fazer?”, “Que me é permitido esperar?” e “O que é o homem?”. E confessa não estar seguro sobre se a filosofia, tal como a conhecemos, ainda tem futuro. “Tal como todas as disciplinas, a filosofia segue a tendência de um acréscimo contínuo de especialização”.
Nuns casos presta serviços analíticos e conceptuais para as ciências cognitivas, noutros há uma fragmentação perante a crescente necessidade de aconselhamento nos campos da economia, da bioética e da ética ambiental. Ora, se para as ciências em geral a especialização corresponde a um progresso, para a filosofia não pode perder-se a visão de conjunto.
Ao dirigir-se ao todo, a filosofia não pode aspirar a uma visão metafísica nem a uma perspetiva científica. “A questão que me move (diz Habermas) é a de saber o que restaria da filosofia se ela (…) não procurasse contribuir para o esclarecimento racional da compreensão que temos quer de nós próprios, quer do mundo – esta disjunção sublinha precisamente a temática que, com o avanço da especialização, ameaça acabar por se desvanecer”.
E assim o acréscimo do conhecimento do mundo exige a referência ao todo, evitando tentar saber mais sobre cada vez menos.
A filosofia não pode resignar-se perante a crescente complexidade da nossa sociedade e do nosso conhecimento, devendo encorajar os nossos contemporâneos a fazerem o uso autónomo da razão para terem um papel positivo no moldar da sua existência social. Como usar a nossa liberdade racional? Para Habermas, a filosofia apenas pode assegurar a independência do seu julgamento mediante uma autorreferência de natureza histórica – assumindo uma configuração pós-metafísica, segundo a qual a emancipação com vista ao uso da liberdade racional significa, ao mesmo tempo, libertação e vinculação normativa. “O afastamento pós-metafísico da crença numa justiça redentora ou ‘salvífica’ permite ter em conta a disponibilidade para a cooperação que os sujeitos socializados em termos comunicacionais devem esperar com vista a fazerem o uso da sua liberdade racional”.
Eis a preocupação que ocupa o filósofo nesta sua reflexão panorâmica sobre a fé e o saber, na procura de um fio condutor para encontrar a genealogia de um pensamento pós-metafísico, que mostre como a filosofia se apropriou de conteúdos essenciais das tradições religiosas e se transformou num saber suscetível de fundamentação.
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A “utilidade” da Filosofia será sempre um motivo de reflexão interessante nomeadamente pela relação pedagógica que se pode construir entre o Filósofo e aquele que ignora a necessidade da Filosofia.
[texto publicado sem qualquer revisão ortográfica e ignorando todas as tentativas de desacordo ortográfico]
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.