Esperar e Amar

Esperar e amar constituem relações dialécticas entrecruzadas no humano com um manto de neve pousado num bosque de árvores outrora verdes. Existe uma relação profunda entre o acto de esperar e o acto de amar. Em ambos os casos, existe uma fricção magnética entre o indivíduo e o outro que permitem que estes fenómenos encarnem com profundidade a condição humana. Esperar e amar são actos verdadeiramente individuais, mas que pressupõem simultaneamente, o outro, como necessário.

Esperar, tal como nos ensina Andrea Köhler constitui um acto verdadeiramente humano. Uma atitude em que o humano se vê numa relação entre aquilo que ainda-não-é e aquilo que pode vir-a-ser. Uma relação dialéctica de si para consigo mesmo, mas onde o Outro se assume como parte fundamental. Esperar é, então, um acto eminentemente individual que carrega toda uma carga angustiante, no sentido existencial do termo, tal como uma criança «proscrita» sentada e alienada num banco da igreja à espera do final da missa. Todo e qualquer acto de espera pressupõe “uma forma semelhante de exclusão, pois na verdade cada um espera por si, até mesmo quando se espera em grupo: é tão impossível partilhar a espera quanto o sono.” A espera ensaia na vida um sentido impositivo que é paralelo ao carácter individual com que actua. A espera funciona como uma força magnética exterior que ataca directamente o indivíduo e nunca o grupo a que este pode pertencer. Isto porque a espera encena com o indivíduo uma relação íntima e que está co-relacionada com a forma como cada um de nós, individualmente, percepciona e toma consciência da noção de tempo inerente ao acto de esperar. Ao mesmo tempo, esperamos sempre por algo e, por isso, a dimensão do Outro revela-se importante na consciência do acto de esperar. Não há espera mais relevante do que a espero pelo Outro, a espera de uma dor que ausenta o Outro, a saudade que o Outro evoca em nós e por ele nos faz esperar, a consciência de que a espera é individual, mas partilhada por todos os indivíduos… tudo isso, compõe o Outro como elemento-chave para a compreensão do carácter impositivo e individual da espera. A. Köhler evoca, várias vezes o testemunho de Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso: “a identidade fatal do enamorado (aquele que ama) não é outra coisa senão: sou aquele que espera”, tomando assim os verbos amar e esperar como quase sinónimos. “Eu que amo sou sedentário, imóvel, estou à disposição, à espera, fincado algures, não reclamado, como um embrulho num canto isolado de uma estação”. O sentimento de espera entre os amantes permite à autora recuperar a cena primordial da esmagadora primeira ausência da mãe apresentada por Freud. Tal como para a criança a espera pela mãe nos é apresentada pela espera de uma ausência – pois para ela a mãe não presente, não existe – também para o adulto esperar é viver experiência longínqua da memória de uma ausência acentuando a dialéctica entre o que «aqui está» e o que «não está». “Quem espera prepara mentalmente um palco para o «discurso da ausência», como Roland Barthes formula. O outro está presente, uma vez que se pensa nele, está ausente, uma vez que, enquanto se espera, se está sempre entregue a si mesmo… Submetido à tortura da incerteza, quem espera experimenta, a cada segundo que passa, a sua dependência em relação ao tempo”.

O aumento vertiginoso da espera por alguém amado pode desaguar na insuportabilidade do próprio acto de esperar anulando a riqueza subjectiva do sujeito que ama e reduzindo-o a uma passividade e consequente ansiedade. A espera, tal como o amor, é apresentada como um jogo existencial que oscila entre a passividade e a acção. A medida das distâncias aferidas no tempo é uma actividade exercida pelos sujeitos amantes, pelo que, a ausência de bilateralidade do acto de esperar no amor, pode conduzir a uma alienação e consecutiva anulação do sujeito.

Amar é projectar o âmago mais profundo da nossa liberdade (individual) no Outro e… esperar / acreditar que essa projecção seja recíproca. Aqui, esperar e acreditar assumem um significado sinónimo na língua portuguesa. Quando, numa determinada conversa, dizemos “assim espero” estamos a projectar no acto da espera a crença (e a vontade) numa determinada consumação de factos futuros. Amar é jogar a liberdade nas mãos do outro. É estar consciente dos riscos e ainda assim aceitar jogar a espera como manifestação estética de uma vida comum.

Do nada somos arrastados para a vida. Pela vida percorremos as entranhas do humano e descobrimos a espera. A espera remete-nos para um vazio pré e pós-existencial relacionado com a finitude do humano, com a sua morte em forma de consciência nele mesmo, enquanto indivíduo, enquanto espécie. Antoine Galland no século XVIII compilou de forma originária uma série de histórias orientais notabilizadas na obra As Mil e Uma Noites onde se percebe um pouco o sentido metafórico do âmbito holístico em que nos situamos: “o rei Xariar, que, ao experimentar a infidelidade da sua esposa, decide vingar-se furiosamente das mulheres, recebe noite após noite uma virgem na sua cama, que manda depois executar de manhã, para que jamais lhe possa ser novamente infligida a humilhação da infidelidade. Este deveria também ser o destino da bela Xerazade, que consegue adiar o cumprimento da sua pena de morte narrando histórias maravilhosas, cuja continuação ela vai sempre prometendo para a noite seguinte. Passadas mil e uma noites, ela apresentará ao rei os seus três filhos – nascidos durante o tempo em que foi contando as histórias – e o rei, encantado pela arte narrativa de Xerazade, toma-a como esposa.” A espera como fonte sagrada da salvação do humano: não é apenas a espera que está em jogo neste domínio mas importância da literatura dos desígnios do humano. Pela palavra, o poder político vergou-se ao encanto da espera e com isso Xerazade protelou o seu próprio fim. Não é um pouco isso que fazemos todos os dias? Protelar o nosso fim??? Em nome de quê? O que define a nossa espera? O que condiciona verdadeiramente a nossa espera? A esfera política das decisões ou a palavra e a literatura? Estas perguntas são um barómetro fundamental na nossa definição perante o fenómeno da existência.

Viver é protelar a existência que nos é concedida. Com o amor aprendemos que viver não é apenas estender quantitativamente a existência humana. O amor traduz-nos a vida na sua perspectiva qualitativa. O amor é assim uma manifestação estética da vida onde cada humano deve escutar a consciência da sua finitude e, em simultâneo, a potencialidade de criação. Nesta relação de escuta o humano tem como obrigação assumir a verdade da sua liberdade individual num terreno social complexo e onde se situam todas as liberdades individualizadas por aquele a quem podemos chamar de Outro.

“Prolongar o prazo de clemência que a existência nos concede, não obstante a consciência da finitude, tal é, para usar as palavras de Marcel Proust, «a lei cruel da arte». No entanto, o desejo de passar o tempo de espera em companhia será talvez a causa primária de toda a narrativa…”

Obra: O Tempo que Passa – um Ensaio sobre a Espera, Andrea Köhler, Guerra e Paz

Poema dedicado à autora: Esperar é Recordar a Existência Humana

 

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Ivo Aguiar

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Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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