A Vegetariana de Han Kang

A obra A Vegetariana de Han Kang é uma ode à liberdade humana. Através de uma personagem feminina, sem nunca cair no ridículo extremista de feminismos baratuchos, a autora sul-coreana galardoada, justamente, com o Nobel da Literatura, apresenta-nos uma nova amplitude de leitura da realidade. Escrita aparentemente simples, sem complexidades estruturais ao nível estilístico e sintático, a obra pode ser lida sem esforço por qualquer leitor. O grau de complexidade que a obra poderá assumir depende das camadas semióticas que cada leitor poderá imprimir. Este jogo entre a potencialidade latente que a autora deixa semeada em cada leitor faz desta obra um elemento muito interessante do ponto de vista literário. A escrita é simples, mas a análise temática assume uma complexidade que poderá oscilar entre a ignorância e a mais profunda reflexão filosófica. Como qualquer outra grande obra de literatura, A Vegetariana encerra em si de forma trágica e poética um desconforto existencial capaz de motivar a transformação de um qualquer sujeito/espectador.

Em tempos de incontinência verbal, Han Kang escolhe, meticulosamente, as palavras simples da sua narrativa e induz o leitor numa leitura contínua e eficazmente pontuada.

As personagens são poucas e os seus nomes em coreano são fáceis de visualizar. Yeong-hye, a vegetariana, personagem central de toda a narrativa, não é apenas uma personagem, mas o motor de ruptura que faz avançar o romance. Estabelece relações com o marido (Yeong-ho), com a irmã (In-hye), com o pai e com o cunhado (casado com a irmã).

O marido (Yeong-ho) representa a violência da normalidade. Socialmente aceitável, apresenta-se como marido “adequado” que vê no casamento o cumprimento de uma função social onde mulher e homem encaram, assumidamente, a sua função utilitarista.

A irmã (In-hye), representa a sobrevivência, a mulher que continua o seu percurso de forma incondicional, a mulher que suporta, que cuida, que trabalha, que aguenta de forma silenciosa a violência patriarcal internalizada.

O cunhado (artista) representa a estetização do corpo feminino. Aparentemente libertador, não vê Yeong-hye como esposa, cidadã, filha ou irmã, mas também não a vê como sujeito integral da sua liberdade. Para ele, Yeong-hye é imagem, fascínio, superfície, arte e interpretação.

O pai (família) representa a violência da autoridade, disciplina corporal, poder familiar, violência legitimada. Se o marido representa o patriarcado moderno, o pai representa o patriarcado tradicional.

Perante estas personagens o romance não é apenas um conflito entre loucura e sanidade, vegetarianismo e carnivorismo, casamento e liberdade. O romance é uma resposta à pergunta: quem tem o direito de definir o que é um corpo humano e para que serve?

Para o seu marido, o corpo deve ser socialmente funcional; para o seu pai, o corpo deve obedecer sempre à autoridade; para a sua irmã, o corpo deve continuar e aguentar; para o seu cunhado, o corpo deve ser contemplado, transformado em objecto de arte. Na tentativa de escapar a esta escatologia predefinida por cada personagem, Yeong-hye vai esculpindo uma tentativa de encontrar a sua verdadeira forma de existir para lá das amarras que lhe vão sendo “impostas”. Recusando a violência humana, a ordem social e o papel da mulher, Yeong-hye, deseja sair da condição humana que o próprio ser humano algum dia cogitou. “Se ser humano implica comer, desejar, dominar, obedecer, representar… então eu não quero ser humana.”

O livro mostra-nos que o vegetarianismo, assim encarado, não é apenas uma dieta, é uma ruptura ontológica substancial. Yeong-hye move-se de mulher normalizada, para um corpo vegetariano, de um corpo vegetariano para um corpo estranho e daí para uma pura existência não-social e não-linguística.

Yeong-hye representa, ao longo de toda a obra, o direito inalienável que cada Ser Humano tem relativamente ao seu próprio corpo. Cada ser humano, por existir, pode imprimir no seu corpo um modo de ser gerido pela sua vontade incondicionada. O livro termina com esta sugestão, mas não fecha o capítulo da reflexão com uma resposta unívoca à possibilidade real de podermos dar este salto existencial onde anulamos a nossa própria existência.

Será que podemos? Será que posso existir de forma incondicional e incondicionada onde o meu modo de ser se sobrepõe a toda e qualquer estrutura que me é imposta? Talvez não, mas refletir sobre as limitações da nossa existência é sempre o melhor exercício para ampliar a nossa liberdade em vida.

Yeong-hye é consecutivamente interpretada, diagnosticada, desejada, corrigida… mas quase nunca é ouvida. Yeong-hye não oferece uma alternativa existencial. Ela oferece a entrega absoluta à entropia natural onde a própria linguagem fracassa. Ela oferece-nos o impossível como forma de vida.

A Vegetariana, não é apenas uma obra feminista. Apesar da centralidade do corpo feminino, a autora tenta desertar a ordem humana por detrás do olhar e, desta forma, apresentar um novo olhar humanista, social e político. Mais do que uma obra aprisionada pelos “ismos” circunstanciais, Han Kang posiciona-se justamente ao lado de Dostoievski, Camus, Améry e Kundera na abordagem central do suicídio perante a complexidade da existência humana. O suicídio, que Albert Camus considerou como o único problema filosófico sério (será que a vida vale ou não a pena ser vivida?), não aparece como um acto da vontade activa e premeditada, mas como consequência de uma passividade reflexiva.

Tema incómodo e aparentemente desnecessário, por tão incómodo que é, o suicídio nesta obra é substituído por um fim quase involuntário de alguém que, libertando-se da ordem estabelecida se entrega a uma nova naturalidade ontológica.

[texto publicado sem qualquer revisão ortográfica e ignorando todas as tentativas de desacordo ortográfico]


Ivo Aguiar

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Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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