Os objectos e o Humano

Quando era criança tinha uma lista de coisas que nunca me podia esquecer quando fosse de férias: o baralho de cartas, o walkman ou mini-disk mais tarde, um certo shampoo, o canivete suíço, as t-shirts selecionadas a dedo, o gel para o cabelo, a bola de praia, e mais uma parafernália de objectos que, na altura, não eram apenas objectos: eram autênticos pilares da existência, sem os quais a essência não tinha qualquer valor. Vistos à luz de hoje não passam de objectos quase insignificantes, alguns historicamente datados e apenas esboçados nalguns museus de antiguidades, outros já perderam o seu carácter utilitarista como, por exemplo, o gel para o cabelo de um careca, outros persistem, mas deixaram de assumir o valor que outrora lhes foi atribuído.

E toda esta retrospectiva revela que nós só somos aquilo que fica para lá daquilo que perdemos, ou, por outras palavras, somos aquilo que nunca podemos perder. Para lá da multiplicidade de coisas que nos rodeiam e do valor que lhes atribuímos ficará em cada um apenas aquilo nos constitui verdadeiramente: o olhar, os silêncios, as frases não ditas, em suma, o modo de ser de cada um, os gestos memorizados nas memórias de quem nos acompanha (e até mesmo essas se esvanecerão um dia), a obra escrita e pensada muitas vezes não lida porque nunca publicada, a extensão do legado das gerações vindouras…

(Existe uma distância infinita que separa os objectos dos sujeitos que os aprisionam. As pessoas, no seu dinamismo, nunca se devem deixar estatizar numa ou noutra representação de si mesmas. Este é um exercício bastante difícil no mundo de hoje. Para lá dos objectos a estatização do real, do modo de ser de cada um na representação da sua imagem, é hoje um imperativo que se reflete na verborreia quotidianamente depositada nas redes sociais. Eu sou a imagem de mim e nunca eu próprio, aliás eu sou a imagem que quero que os outros vejam de mim. Eu já não sou a representação de mim mesmo, mas a representação que quero que os outros tenham da minha representação. O meu valor já não é ditado pelo que SOU, mas pelo número de pessoas que navegam nas minhas representações de mim mesmo. Este é um sentido verdadeiramente trágico que o mundo tecnológico nos proporcionou. Dizer que não a tudo isto é uma arte cujos polos dialécticos desafiarão todas as gerações mais jovens. Boa sorte. Pior do que isso é encontrar um sentido pedagógico que explique este vazio aos adultos.

Objectos e representações. Ingredientes básicos para um vazio existencial justificado apenas pela ânsia de negação do sentido fundamental que alimenta o ser humano e o separa dos demais animais: a linguagem condição do pensamento e, em simultâneo, condição de possibilidade das artes, a finitude de quem pensa o infinito, a capacidade de tornar um problema belo, a capacidade de negar o absurdo do pensamento não evidente…).

Por tudo isto, relembro com saudade alguns bons momentos que as férias nos proporcionam. Um dia, na praia, caminhei sem destino, no caminho físico do percurso e no caminho psicológico do discurso. Dialoguei com alguém, partindo do pressuposto (por vezes esquecido) que dialogar significa também escutar apenas e sem nada. Sem objectos, sem qualquer instrumento capaz de captar o momento. O conteúdo do diálogo continua a ser algo que ainda hoje me alimenta. Esse alguém era uma das minhas filhas. Um dia a memória desse diálogo também se perderá, em mim e nelas. A essência desse momento, todavia, não está circunscrita à possibilidade da sua memória, porque aquilo que os momentos essenciais provocam é o dinamismo de uma vida que se segue, marcada pelos tempos sem tempo, os tempos sem relógio, os tempos não cronometrados de quem escuta e de quem fala. São estes tempos marcados pela ausência da finitude do tempo que revelam o melhor de nós, enquanto humanos. São esses tempos que devemos primar quando contactamos com as gerações mais novas! Sem este tempo, não há arte, não há poesia, não há música… apenas frames de um ser estilhaçado num terreno minado de quem o quer cultivar intensivamente e apenas com um só alimento… Sem esse tempo, haverá apenas ruído.

 


Ivo Aguiar

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Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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