O poema é feito de surdina

Na poesia não está escrito apenas o que está.

O poema é feito também de uma surdina que ilumina o que está para lá de si e que, por vezes, o sentido da palavra “encerra”. Encerrar, neste sentido, assume um significado diametralmente oposto ao sentido literal do termo. Apresentado assim, oximoramente, “encerrar” significa precisamente capturar o que, por si, está para lá do capturável. O sentido da palavra no poema é pois, muito mais a liberdade daquilo que, dinamicamente, o leitor pode “acrescentar” do que aquilo que o dicionário (ou qualquer outra categoria semântica) impõe. A palavra é, pois, uma luz. A luz, não existe tal como existe uma maçã ou uma garrafa de água.
A Luz é uma força dialéctica que se torna “visível” no confronto com a Sombra. A luz não existe sem a sombra, a sombra não existe sem a luz. O poema não existe sem a palavra e o sentido denotativo que a semântica nos impõe. Simultaneamente, a palavra e o sentido (in)visível que esta (des)comporta não existem sem o poema. A surdina que ilumina o poema é o sentido oculto daquilo que não é dito, mas que pode ser “des”coberto por alguém que pretenda dispor-se a cruzar este encontro de linguagens visíveis e invisíveis. A luz das coisas não está nas coisas tal como a luz do poema não está no sentido literal do que é dito. Se não fosse este desencontro o ser humano não se dispunha à Beleza. A realidade podia ser analisada exclusivamente à luz das partículas moleculares que a fisiologia traduz. Abençoada beleza que faz do humano um ser especial, mas talvez não mais do que isso, humano, demasiado humano.

 


Ivo Aguiar

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Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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