‹‹A perceção absolutamente silenciosa assemelha-se a uma imagem fotográfica com um tempo de exposição muito grande. A fotografia do Boulevard du Temple de Daguerre apresenta na realidade uma rua parisiense muito movimentada. Contudo, devido ao tempo de exposição extremamente longo, típico do daguerreótipo, tudo o que se move desaparece. Só é visível o que permanece parado. O Boulevard du Temple irradia uma calma quase aldeã››, em que todo o ruído está proscrito. ‹‹Além dos edifícios e das árvores, apenas se vê uma figura humana, um homem a quem limpam os sapatos, e por isso está parado.›› Apenas o longo e o lento se tornam realidade. ‹‹Tudo o que se apressa››, tudo o que tem pressa – e todos nós temos pressa –, ‹‹está condenado a desaparecer. O Boulevard du Temple pode ser interpretado como um mundo visto através de um olho divino. Ao seu olhar redentor apenas aparecem os que permanecem em silêncio contemplativo. É o silêncio o que redime.››

Fonte da imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Boulevard_du_Temple_by_Daguerre.jpg?uselang=fr
A imagem “provocada” por este fragmento do livro de Byung-Chul Han (A Tonalidade do Pensamento, CRITICA, 1ª edição, p. 49) é suficiente para que nada mais seja dito.
“apenas aparecem os que permanecem em silêncio contemplativo”
O olho divino capta apenas o que não tem pressa, o que permanece em silêncio.
Melhor definição de oração num mundo cada vez mais a-espiritual: o silêncio com vista à captação do olho divino; uma forma de comunicação contemplativa onde impera o silêncio, a calma e a presença sem movimento. Neste estado de graça extremo, o homem funde-se com a natureza e entropiza-se como forma de redenção.
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.