A intermitência do tempo no Humano.
No início de Janeiro deste ano de 2022, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos (BSS) apresentou-nos uma interessante reflexão sobre o termo grego akedia (indiferença, ausência de cuidado ou depressão no sentido moderno do termo) e da sua relação com as condições psicológicas do tempo no humano – do mundo em pausa ao mundo intermitente.
“Desde há dois anos, a vida pessoal e social vive-se em registo de pausa, tal qual no computador, é ter a tarefa momentaneamente interrompida. Nem abandonada, nem concluída. Os planos pessoais e sociais sempre passam por momentos de pausa. E durante estes anos temos recorrido permanentemente ao registo de pausa nas nossas relações e nas nossas expressões… Planeamos convívios e actividades sociais e profissionais sempre sujeitos à intermitência da pandemia. Planear para a intermitência não é o mesmo que planear para a linearidade. E isto é válido tanto no plano pessoal como no colectivo, tanto no âmbito privado como no público. Se for recorrente, a intermitência da pausa cria uma discrepância com a experiência existencial: vivemos continuamente e não intermitentemente. Se o registo da pausa se instalar, teremos de passar a planear como nunca para poder viver como sempre. Com o passar do tempo, é possível que tal planeamento se transforme em planear como sempre, e a vida, já transformada por ele, se transforme em vida como sempre. Essa possível transformação está expressa na ideia do ‘novo normal’. Uma ideia em si contraditória: se uma condição é normal, não é nova e, se é nova, não é, de imediato pelo menos, normal. Se o registo da pausa se mantiver, perde a natureza de pausa. Como será vivermos depois de esquecidos de que tudo começou vivendo em pausa, interrompendo-se o que, em princípio, não seria interrompido? Como serão as relações ‘profundas’ ou ‘duradouras’? Serão duradouras e profundas as relações que se adaptarem melhor à intermitência, numa espécie de lógica de selecção darwiniana das espécies? Como se reinventam os conceitos de progresso e de regresso ou retrocesso? Com conceber a satisfação das necessidades e a felicidade?“
Quando BSS escreveu estas palavras vislumbrávamos o fim generalizado da pandemia e conseguíamos prever algum grau de previsibilidade na linearidade das nossas vidas. Podíamos entender a força teórica das palavras, mas, no fundo, a felicidade de que falava, podia ser intuída com algum grau de previsibilidade do ponto de vista sociológico. Ainda a nova Guerra entre a Rússia e a Ucrânia era uma miragem apenas exequível no seio das paredes do Kremlin; ainda o bloqueio e as severas sanções económicas à Rússia era uma impossibilidade; ainda o preço dos combustíveis energéticos e restantes matérias-primas, que alimentam a base de uma cadeia económica complexa, estavam apenas subordinados a uma lógica de estabilidade nacionalista vivida ao longo dos últimos 70 anos na Europa. Ler as palavras de BSS após 20 dias de invasão das forças militares Russas em território ucraniano e a consecutiva devastação material, social e emocional de um estado de direito independente, é ainda mais motivador do ponto de vista da análise reflexiva. A intermitência que a pandemia nos habituou parece que se concretizou num golpe baixo que deixa grande parte da humanidade em knockout completo. A nova guerra abriu no humano uma nova fenda. A pandemia que era apenas exterior e biológica passou agora a ferir a intermitência do humano na sua vertente interior e social. Mais do que nunca devemos preparar os mais novos para um novo período de transformação histórica em que a virtude da incerteza reinará ao longo dos próximos anos sobre qualquer resposta com ou sem carácter dogmático. A incompletude e a incerteza inerente a qualquer espírito humano são a base para a aceitação de uma transformação social em curso. Por si, só a incerteza pode levar um esgotamento psicológico sem fundo, no entanto, se devidamente explicado e fundamentado com a ajuda capital de algumas ciências sociais e, também, da Filosofia, pode ser a base de uma consciência mais bem estruturada que nos deixe (em nós e no outro) uma frincha aberta de esperança num futuro decente. Tal como o desejo de imortalidade pode ser substituído pela consciência plena da finitude no humano, também a felicidade pode ser melhorada pelo sentido crítico da consciência que cada humano tem de si perante o universo físico e social que o rodeia.
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.