A memória é aquilo que fica depois das coisas que passam.
Mito, ficção ou simplesmente adaptação do real, consta que Miguel Ângelo atirava as suas esculturas numa altura de 4 metros, em direção ao chão
“Apenas o que sobrar é para ficar”
“A escultura é o que fica depois da queda”
Interessante e subtil este filtro dialéctico entre a entropia da física que comtempla a queda submetida ao princípio de estabilidade termodinâmico e a homeostasia da química que induz no humano um comportamento deliberado ao provocar a queda. O resultado é uma síntese, uma superação de dois contrários
A queda das esculturas de Miguel Ângelo pode traduzir-se metaforicamente quando aplicada à vida através do Filtro do Tempo. O tempo é o filtro da queda da vida num corpo. Em situações do quotidiano, não nos apercebemos que a nossa vida é apenas uma escultura em queda, em direção a um chão firme, que imprimirá em nós apenas aquilo que deverá restar. A queda é apenas o tempo que filtra a própria vida e permite que esta prossiga. No entanto, passamos uma vida a coleccionar os escombros daquilo que é apenas espuma, estilhaços que sobram e se separam do essencial.
Em situações limítrofe, o que não se desfaz na Vida é a sua própria essência, a profundeza que habita o humano e o constitui verdadeiramente.
A ausência do tempo é o limite de um nada que fica. O nihilismo também pode ser aplicado ao Tempo no Humano. O silêncio é a prova de um nada que não existe “para nós”. Um nada cuja essência pode ser pensada, mas cuja existência dificilmente se consegue intuir.
A Espuma dos Dias
Os dias, os hábitos, as vontades de cada um, são apenas espuma, sustentada num infinito mar, um oceano de gotas sólidas que nos definem e limitam. A espuma dos dias é apenas uma moldagem visível de um mar que nos sustenta, a nossa vida. A nossa queda escultural.
Dificilmente se vive a vida. Facilmente nos deixamos “levar” pela espuma dos dias, pelos estilhaços que a própria vida nos causa. Através do pensamento, e da força da razão, conseguimos pensar um outro sentido da vida, um significado teleológico para lá das tempestades de cada vida.
Depois da tempestade passar, a espuma dos dias desaparece e fica apenas o mar, agora sereno, constitutivo e quase eroticamente (re)velado. Ou não fica nada, pois ficamos cegos de ver apenas a espuma e, para nós, psicologicamente existe apenas e tão só a espuma. Mas se conseguirmos ver o mar, conseguimos ter a percepção de que somos aquilo que fica depois da adversidade.
As memórias depois dos dias.
Os pensamentos depois dos livros.
Os comportamentos depois da sensação das emoções.
Os gestos depois do pensamento.
A vida é o fica depois da espuma se desvanecer.
Esta é uma visão poética e real da vida e do mundo e está nos antípodas da versão “user friendly” de um universo (im)pensado onde os olhos apenas vêm a espuma criada por alguém. Na década 60 esse alguém foi pensado pelos estruturalistas como uma entidade abstracta, uma estrutura que nos condiciona e simultaneamente justifica. Esses a prioris foram evoluindo ao longo de gerações. Hoje em dia, nesse alguém cabem todos os algoritmos forjados na costa da Califórnia por empresas que alimentam todos os influencers, os youtubers do pensamento moderno e cuja mira se baseia tão só e apenas na espuma de si. Muito daquilo que atropeladamente nos “aparece” nos feeds das redes sociais é apenas uma espuma tóxica através da qual gerações estão a ser dolentemente encaminhadas para uma caverna sem saída.
Talvez Tempo, Espaço e Silêncio se unam um dia e mostrem à cegueira da vida que aquilo era apenas espuma e que a vida é tudo aquilo que sobra para lá da própria espuma.
Talvez um dia Tempo, Espaço e Silêncio mostrem de novo ao mais puro do humano que na caverna dos dias reside apenas um espelho do Vale do Silício e cujo reflexo eram apenas as pessoas.
Um dia quando estiveres sozinho perante ti mesmo. Um dia, quando estiveres sozinho e sem ninguém (ausência do alguém) para conservar. Um dia, perante o silêncio da almofada, sem lugar para ir ou voltar. Um dia, sem paciência para ler aquilo que milhares de outros leram algures, tira uns segundos de ti e prova o gosto do pensamento livre, o pensamento do novo e do estranho, o pensamento que cria em cada um vazio e um desejo infinito e incessante de uma liberdade maior. No cinema, na arte e sobretudo na poesia da nossa língua irás encontrar em ti um lugar de convergência ontológica onde o uno e múltiplo se fundem num só através da beleza de um só olhar.
Feliz ano de 2021
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.