“As palavras na poesia são diferentes das do uso corriqueiro do dia-a-dia. Nas outras actividades as palavras têm uma certa transparência, servem para apontar para os caminhos enunciados. Na poesia parece que a palavra cria uma opacidade, coisifica o que está apontando, não está apenas dizendo as coisas, mas sendo o que se diz, enquanto experiência de linguagem. Porque em vez de estar intermediando as nossas relações com os objectos do mundo, ela está a criar uma via de acesso mais directo ao mundo, incorporando os seus sentidos corporalmente.”
Arnaldo Antunes em entrevista a Manuel Halpern.
Excelente mote para reflectir um pouco sobre a relação entre a palavra e a sua aplicabilidade pelo humano. O uso da palavra é uma actividade multipolar e deve merecer sempre o maior respeito pelo seu utilizador principal. Se a palavra salva, se a palavra mata, se a palavra move, se a palavra anula… então a palavra é poder. Mas há diferentes tipo de poder: em todos eles a palavra (ou a sua ausência) assume uma importância significativa no decurso que o humano pode imprimir na sua vida e na dos demais. A consciência da utilização da palavra é uma ramificação da ética que devia fazer parte de todos os requisitos para um ser humano exercer um cargo político. Mas se a palavra tem diferentes tipos de poder, não é o poder político que aqui nos interessa. O poder da palavra que Arnaldo Antunes nos fala é o poder poético, o poder de estabelecer com o mundo uma relação ímpar e intransmissível.
A palavra do dia-a-dia –> Transparência –> Intermediação
A palavra na Poesia –> Opacidade –> Acesso directo
O autor destaca a relação de opacidade que a poesia pode imprimir na realidade, conectando-nos directamente ao mundo através de uma relação de verdade distinta. A noção de verdade na ciência torna-se uma disciplina filosófica devido ao facto de entre o humano e a realidade haver sempre uma intermediação de signos que a tenta explicar. Assim, para lá da transparência do dia-a-dia que nos faz apontar sempre para o sentido restrito de algo, a ciência exponencia esta relação de transparência e procura explicar os fenómenos, assumindo a intermediação e mantendo-se fiel o mais possível a uma relação de causalidade explícita entre o homem e a realidade (natureza, se estivéssemos no século XVI). Na poesia a verdade é substituída pela beleza. A verdade já não é apenas uma intermediação. Na poesia os signos são apenas um meio para atingir a autenticidade. Aqui estamos perante o reino da criatividade. Na ciência, a experiência da linguagem encontra a auto-estrada do conhecimento empírico e realista. Na poesia a auto-estrada é um caminho bifurcado, por vezes sem saída onde a experiência de linguagem assenta numa espécie de realismo mágico.
A unicidade da verdade é agora a multiplicidade dos sentidos (infinitos) criados e remanescidos pelo contacto entre o autor, o poema e o leitor. Arnaldo Antunes fala-nos do poder da fagulha no acto poético de criação. A fagulha não é apenas a ideia subjacente à criação, mas o espírito e a disponibilidade que cada um, enquanto leitor, tem para converter a experiência de criação na sua fagulha de interpretação infinita. A beleza acontece nesta convergência de fagulhas que se incendeiam em tempos distintos.
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Arnaldo Antunes é um músico, poeta e compositor brasileiro, conhecido por sua criatividade e experimentação com linguagem, som e imagem. Nasceu em 1960 e ficou conhecido por formar e pertencer aos Titãs, banda que marcou o Rock Brasileiro a partir dos anos 80. Na década de 90 laçou uma carreira a solo e, pelo caminho, alcançou um enorme sucesso no Projecto Tribalistas em que se juntou a Marisa Monte e Carlinhos Brown para dois discos e muitos espectáculos. A obra lançada pela Imprensa Nacional, em 2024, Quase Tudo, é uma antologia da poesia do autor que vale a pena conhecer.
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Ivo Aguiar
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Sobre o Autor
Ivo Aguiar
Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.