Frederic Jameson (1934-2024)

Fredric Jameson é um dos mais influentes teóricos marxistas da contemporaneidade, especialmente associado ao debate sobre pós-modernidade e crítica cultural. Nasceu a 14 de Abril de 1934, em Cleveland, nos Estados Unidos da América e faleceu, aos 90 anos, a 22 de Setembro de 2024. Salvo raríssimas excepções, muito pouca relevância é dada a este multifacetado e poderoso pensador. Leccionou em instituições como a Universidade da Califórnia, Yale, Harvard e foi professor emérito na Duke University, onde dirigiu o Departamento de Literatura Comparada.

Professor universitário de excelência deixou-nos um legado complexo enquanto crítico literário pela visão sistémica onde forma e conteúdo se ligam intrinsecamente em visões do real que, tendo por base uma re-interpretação do marxismo, apontam uma leitura contemporânea lúcida e esclarecedora. A sua obra trata de uma extraordinária variedade de assuntos/fenómenos artísticos/culturais. Em 1971, dá-nos a conhecer Marxism and Form onde apresenta aos leitores americanos parte da rica tradição de teoria marxista dita “ocidental” – Lukács, Benjamin, Sartre, Althusser, Adorno, Marcuse… até então praticamente desconhecidos neste continente. Segundo assinala Tally Jr. F. Jameson “arregimentou” estes pensadores para os “pôr ao serviço de uma sofisticada teoria crítica dialéctica”. Partindo do marxismo clássico, F. Jameson, “lançou as bases do lugar que ocupou nos debates sobre os estudos literários e a teoria crítica dos anos vindouros”, revelando-se uma peça fundamental nos estudos hermenêuticos culturais pós-estruturalistas. Lyotard, Baudrillard e Foucault, são apenas alguns exemplos que debateram e criticaram passagens importantíssimas da sua obra.

Partindo de Sartre, F. Jameson afirma que o marxismo é o “horizonte intranscendível”. O marxismo deve ser visto como uma renovação constante da estrutura que condiciona e possibilita o indivíduo enquanto parte integrante e condicionada. Mais do que uma máquina potente de interpretação histórica e social do mundo, o marxismo deve constituir-se como teoria crítica dialéctica, capacidade ímpar e infinita de identificar os “múltiplos sentidos” de qualquer texto.

O marxismo é mais uma filosofia crítica e menos uma filosofia sistemática. É mais uma correção de outras posições que uma doutrina da variedade positivista, existindo por direito próprio”.

Marxism and Form

Para F. Jameson, o que chamamos de “pós-modernidade” não é apenas um estilo artístico ou cultural, mas a forma cultural que corresponde ao capitalismo amplo (globalização) do fim do século XX. Esta é a base da sua reflexão em Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Para ele, a cultura, nunca é neutra do ponto de vista estético. Todas as manifestações artísticas estão, de certa forma, ligadas ao contexto social, económico e político de uma determinada época. Toda a manifestação artística está “carregada” com um “inconsciente político” e estrutural que pode e deve ser desvelado pela crítica marxista dialéctica.

Always Historicize. Assim abre a sua importante obra de 1981, The Political Unconscious, onde analisa a historicidade e sua relação com a sociedade. O contexto social é a base de uma perspectiva meta-sincrónica onde a sociedade é apresentada como sistema e a história como um processo.

 

Principais obras editadas:

  • Marxism and Form (1971)
  • The Political Unconscious: Narrative as a Socially Symbolic Act (1981)
  • Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism (1991)
  • Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions (2005)
  • Valences of the Dialectic (2009)

 

F. Jameson deixa-nos um legado importante não apenas para os críticos literários, filósofos, sociólogos e demais académicos. Compreender a teoria crítica dialéctica onde o marxismo, de fundamentação pós-estruturalista, não é uma teoria sistemática do real, mas uma filosofia crítica que nos ajuda a compreender os limites da própria realidade – que pode ser o mundo, mas um texto – é o mote para a compreensão da realidade que nos cerca. F. Jameson é essencial nos dias de hoje, quando a estrutura não é apenas o capital, mas, essencialmente, o digital.

É impossível compreender o quão condicionado está hoje o ser humano relativamente ao fenómeno de agrilhoamento digital universal sem perceber as bases de reflexão que F. Jameson lançou através de uma sempre renovada teoria crítica dialéctica.


Ivo Aguiar

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Sobre o Autor

Ivo Aguiar

Leitor omnívoro. Escritor independente. Filosofia, Poesia e Arte em Geral.

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